Aquele pequeno túmulo

Hoje estive no cemitério. Muitas covas se alinhavam em meio ao que antes parecia ser um corredor. Muitas falas, risos e vendedores indo e vindo em meio a tantos mortos silenciosos.
O cemitério, visitado por mim somente na infância, parecia não ser o mesmo, estava repleto de covas, até mesmo onde antes eram espaços reservados aos pedestres. Estava repleto de mortos, como se na cidade não houvesse outro lugar para tanta gente morta.
Entre muitos indo e vindo, um túmulo de arreia me chamou atenção, espremido entre dois de alvenaria e outros muitos de granito. O tumulo, sem cruz e sem nome, pois não havia local para qualquer identificação, parecia ter sido erguido naquela mesma manhã. Suas paredes de terra molhada, ainda tinham marcas da colher de pedreiro, das mãos de seus construtores.
O pequeno túmulo, parecia emergir de um silencio histórico, afirmando ser alguém entre os muitos que apesar de desgastados, se evidenciavam mais que ele. Este pequeno túmulo, erguido com terra molhada, na forma retangular, possivelmente representando os demais, e enfeitado com duas pequenas plantas; me fez refletir sobre outro mundo que não aquele. Me fez refletir sobre as muitas pessoas que havia conhecido e que, como aquele simples túmulo, tentavam existir em uma sociedade que em muito os negavam e os excluíam. Me fez lembrar das muitas pessoas que lutaram pela sobrevivência de suas famílias, que construíram suas poucas oportunidades, e que não escreveram seus nomes na história porque todas as suas forças estavam concentradas em suas próprias sobrevivências…
Aquele pequeno túmulo me fez lembrar dos muitos excluídos, e esquecidos, que ajudaram a construir a cidade que vivemos, carregando pedras, tijolos, cavando fundações, rebocando paredes tão retas quanto as de areia que estavam a minha frente. Aquele pequeno túmulo, me fez perceber que a vida de alguns, parecem permanecer em condições semelhantes a que viviam.
Ao mudar a direção de meu olhar, observei a necrópole, e percebi que os vivos, pelo menos a maioria dos que ali estavam (quase todas pessoas simples, com seus rostos avermelhados possivelmente de trabalharem ao sol) pareciam ser os futuros moradores daquele pequeno túmulo. Pareciam estar do outro lado do espelho da vida, na condição de vivos, mas ocupando espaços parecidos ao do pequeno túmulo naquela povoado cemitério. Pareciam estar apenas esperando o tempo de suas mortes, pois o sofrimento e o silencio social já haviam cavado seus espaços na sociedade e na cidade.
Diante de tantos túmulos, covas de mortos e vivos, sob o sol forte das nove da manhã, mergulhei em mim mesmo em um silencio pouco vivido nestes últimos meses. No silencio, percebi que não apenas aquelas pessoas estariam naquele pequeno tumulo representadas, mas minha própria história, a história dos meus antepassados, dos agricultores, construtores, e agora professores que construíram suas trajetórias em meio ao silencio da luta pela sobrevivência, da luta pela moradia, pela alimentação, e que não lutaram no campo das grandes mudanças.
Me vi então naquele pequeno túmulo, deitado e silenciado em meio as grandes construções de granito e mármore. Me vi, erguido em um calvário social, sustentado pelas muitas horas de trabalho, os muitos finais de semanas escrevendo, estudando, pelas muitas pedras carregadas por mim mesmo nas manhãs de domingo.
Foi quando percebi que a minha vida até então teria sido semelhante a de muitos que estavam  aminha volta; que meus sonhos, tinham sido sonhados por outros que possivelmente estavam ali, diante de mim, vestidos pela terra molhada e esquecidos pela história. Naquele momento, senti que estava em dois lugares ao mesmo tempo: senti-me velado pelo silencio da terra, e envolvido pelo grito dos comerciantes que ofereciam velas e caixas de fósforos.
Quando retornei de minha reflexão, e me pus a sair da necrópole, eis que encontrei em minha direção, vindo de um dos portões laterais, um terceiro, carregado por familiares, envolvido por um madeiro simples, regado por lagrimas de crianças mulheres e anciãos. Parei, observei, e novamente me vi lá dentro, na mesma condição, no mesmo silencio profundo…
Após acompanhar a procissão, trilhei meu caminho e retornei para casa, consciente de estar saindo temporariamente daquele espaço e que algo de mim havia ficado naquele pequeno túmulo.

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